sábado, 8 de julho de 2017

O LIVRO DOS ESPÍRITOS - POR ALLAN KARDEC





A maior luta dos espíritas, seguidores, ou simpatizantes desta doutrina codificada por Allan Kardec, é de fato estudar, é entender, será tão difícil assim ?

A exemplo de alguns sites vamos fazer aos poucos, que tal?

Nas perguntas 995, 996, falamos da ocupação dos espíritos, quando maus porque não mudam? é preciso entender a pergunta do codificador e a resposta dos imortais(995), na 997, a prece funciona com eles de verdade ? entenda....



995. Haverá Espíritos que, sem serem maus, se conservem indiferentes à sua sorte?

“Há Espíritos que não se ocupam de nada útil. Estão na espera. Mas, nesse caso, sofrem proporcionalmente. Devendo em tudo haver progresso, neles o progresso se manifesta pela dor.”

a) – Não desejam esses Espíritos abreviar seus sofrimentos?

“Desejam-no, sem dúvida, mas falta-lhes energia bastante para quererem o que os poderia aliviar. Quantos indivíduos se contam, entre vós, que preferem morrer de miséria a trabalhar?”





996. Pois que os Espíritos vêem o mal que lhes resulta de suas imperfeições, como se explica que haja os que agravam suas situações e prolongam o estado de inferioridade em que se encontram, fazendo o mal como Espíritos, afastando do bom caminho os homens?


“Assim procedem os de tardio arrependimento. Pode também acontecer que, depois de se haver arrependido, o Espírito se deixe arrastar de novo para o caminho do mal, por outros Espíritos ainda mais atrasados.” (971)


997. Veem-se Espíritos de notória inferioridade acessíveis aos bons sentimentos e sensíveis às preces que por eles se fazem. Como se explica que outros Espíritos, que acreditaríamos mais esclarecidos, revelem um endurecimento e um cinismo dos quais coisa alguma consegue triunfar?

“A prece só tem efeito sobre o Espírito que se arrepende. Com relação aos que, impelidos pelo orgulho, se revoltam contra Deus e persistem nos seus desvarios, chegando mesmo a exagerá-los, como o fazem alguns desgraçados Espíritos, a prece nada pode e nada poderá, senão no dia em que um clarão de arrependimento se produza neles.” (664)

Não se deve perder de vista que o Espírito não se transforma subitamente, após a morte do corpo. Se viveu vida condenável, é porque era imperfeito. Ora, a morte não o torna imediatamente perfeito. Pode, pois, persistir em seus erros, em suas falsas opiniões, em seus preconceitos, até que se haja esclarecido pelo estudo, pela reflexão e pelo sofrimento.





DOUTRINA ESPÍRITA É PRECISO ESTUDAR, ENTENDER, O QUE FALARAM OS ESPÍRITOS MENSAGEIROS, QUE PROCURARAM KARDEC, A VERDADE SEM FANTASIA, SEM SONHO SÓ MUDAR QUEM QUER, NINGUÉM DETERMINA EM ESPÍRITOS MUDANÇAS, ELES ACEITAM QUANDO E SE QUISEREM, LOGO, MUDE SEUS PENSAMENTOS, ESTUDE, CONHEÇA A VIDA ALÉM DA VIDA, COM 
ALLAN KARDEC.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O TERRÍVEL OBSESSOR - POR RICHARD SIMONETTI


                            






Fares, próspero comerciante, aguardava com ansiedade o término dos trabalhos mediúnicos em sala íntima, junto ao salão de reuniões públicas, no Centro Espírita. Desejava orientação para um problema que o afligia. Algo aparentemen­te simples, até ridículo para quem o apreciasse, mas terrível para ele que o enfrentava: uma dificul­dade no fechamento diário de sua próspera loja.

Dificuldade não era o termo exato. Diria melhor batalha. Uma batalha contra o impulso de repetir intermináveis cuidados e verificações,
rela­cionados com as instalações elétricas, o cofre, as janelas e a porta de entrada.
Esta última era o tormento maior. Parecia dotada de magnetismo. Por maior fosse seu empenho em afastar-se, era inexoravelmente atraí­do, levado a testar repetidamente se estava tranca­da. Pressionava para cima, como se fosse erguê-la, experimentando a resistência da fechadura central. Observava o cadeado embaixo, manualmente, porque não confiava no testemunho de seus olhos.
Ensaiando resolução, virava as costas e da­va alguns passos em retirada. Frustrava-se logo, porquanto a dúvida se instalava de imediato, tra­zendo-o a novas verificações. Repetia aquele bailado irracional múltiplas vezes, disfarçan­do para que ninguém percebesse seu comporta­mento desatinado.
Quando finalmente convencido de que tudo estava bem, já no estacionamento em tra­vessa próxima, ressurgia a infame dúvida: "Será que tranquei o cofre?"
Então se danava, forçado a rever a verificação, confrontando pela enésima vez a malfadada porta, a esquentar os miolos.
Confiava na ajuda espiri­tual. O médium encarregado do receituário era
co­nhecido por suas virtudes como instrumento dos Espíritos em favor de pessoas atribuladas.



Encerrada a reunião, ouviu chamarem por seu nome. Levantou-se e foi ao encontro do aten­dente, que lhe entregou a esperada orientação. Em letra firme e alongada estava registrado:
        
Diagnóstico: Auto obsessão.
      
Tratamento: Passe e oração. Ler  Mateus, 6:19-21.


Fares estava perplexo. Já ouvira alguém se re­ferir à auto obsessão como um processo em que o indivíduo alimenta ideias infelizes que o pertur­bam, colhendo sofrimentos voluntários, desneces­sários e inúteis, algo como morder a própria língua ou bater a cabeça na parede.
Chegando ao lar, buscou um exemplar de O Novo testamento. No trecho recomendado, leu:
Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a Terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam. Mas, ajuntai para vós outros tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem e onde ladrões não escavam nem roubam. Porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.
Impressionado, Fares considerou que talvez fosse melhor empenhar o coração em favor de ri­quezas mais consistentes, conforme a recomenda­ção de Jesus.

                                   * * *
Quando nos envolvemos demasiadamente com o imediatismo terrestre, nossa mente passa a funcionar em circuito fechado, gerando dúvidas e angústias que crescem rapida­mente em nosso íntimo, como massa levedada.
Em tal situação, antes de cogitarmos da existência de supostos obsessores, melhor faríamos combatendo a auto-obsessão, no esforço por arejar nossa vida interior com ideias nobres e ideais santificantes, cuidando das “coisas do Céu”, par que as “coisas da Terra” não nos sufoquem.


Richard Simonetti, 81, é espírita, escritor, divulgador da Doutrina Espírita no Brasil há mais de 63 anos, tem suas páginas na internet, em Facebook, e colobora com este blog semanalmente.



sábado, 17 de junho de 2017

NÓS E OS OUTROS UMA EXPERIENCIA NEUROLÓGICA - POR NUBOR ORLANDO FACURE



No livro “O que o Cérebro tem para contar” Ramachandran fala de uma experiência neurológica que ocorre durante uma cirurgia no cérebro de um paciente chamado Smith, na Universidade de Toronto, um dos maiores centros de cirurgia para epilepsia.




Tudo é feito com o cérebro exposto e o paciente acordado.No decorrer da cirurgia o cirurgião introduz um eletrodo na região do Cíngulo anterior – nessa área, muitos neurônios se especializam em reagir a dor. A delicadeza do procedimento permite tamanha sofisticação que, em determinado momento, o cirurgião detecta um neurônio em particular que reage a cada vez que a mão do Sr. Smith é picada com uma agulha

 – até aí nada de muito especial – mas, o médico se assombra com o que vê a seguir: esse mesmo neurônio se excita de maneira igualmente vigorosa quando é mostrado ao Sr. Smith uma outra pessoa sendo picada na mão – é como se o neurônio, ou o circuito neuronal de ele faz parte, estivesse sentindo empatia para com a outra pessoa – ou seja: a dor do outro – a dor de um estranho torna-se uma dor igual no Sr. Smith.







É, mais ou menos o que aprendemos na velha Índia e no budismo – afirmam não haver nenhuma diferença essencial entre a própria pessoa e o outro, e que a verdadeira iluminação decorre da compaixão que dissolve essa barreira – agora temos uma demonstração física dentro dos neurônios – nossos cérebros são fisicamente construídos para reagir com empatia e compaixão.






Lição de casa:
Em essência somos todos iguais
Se pudéssemos vencer as barreiras do egoísmo sentiríamos as necessidades dos outros como necessidades nossas também.




Nubor Orlando Facure, 76, é médico, neurologista, espírita, escritor, um dos grandes colaboradores da Doutrina, caminhou na jornada durante 50 anos como amigo e médico de Chico Xavier, é colaborador deste blog, hoje presidente do Instituto do Cérebro em Campinas.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O MOBILIÁRIO DO CÉU - POR RICHARD SIMONETTI

             
                                    



         Conta Jesus (Lucas, 12:16-21) que a seara de um homem rico produziu muitos frutos, tantos que não tinha onde guardar. Resolveu, então, derrubar velhos celeiros e construir novos, bem maiores, e ali recolheria o seu tesouro. Depois diria à sua alma:
         – Tens em depósito muitas riquezas para muitos anos. Descansa, come, bebe e folga.
         Mas Deus lhe disse:
         – Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado para quem será?
         Comenta Jesus: – Assim acontece com aquele que é rico diante dos homens, porém não rico diante de Deus.




         Certamente aquele homem rico, como todo judeu, frequentava a sinagoga, pagava o dízimo, jejuava, efetuava sacrifícios no templo, observava o sábado.
         E, como todo ser humano, empenhava-se em melhorar suas condições materiais, com mais riquezas, mais propriedades, mais dinheiro, garantindo velhice confortável.
         Faltou-lhe o detalhe fundamental: preparar seu futuro como Espírito imortal.
                                               ***



         Só há uma certeza na vida – a morte. Todos morreremos um dia. Só há uma certeza na morte – nada levaremos. Caixão, como se costuma dizer, não tem gavetas. Tudo permanecerá aqui.
Ficarão bens, propriedades, riquezas, joias, dinheiro… Até mesmo um mísero alfinete será confiscado na rigorosa alfândega do Além. E também fama, poder, prestígio, títulos…
Importante jamais esquecer que mais cedo ou mais tarde, amanhã ou dentro de algumas décadas, bateremos as botas, retornando ao mundo espiritual, à pátria verdadeira, ao nosso lar.
Manda a prudência e o bom-senso que tenhamos sempre um pé atrás, isto é, que estejamos atentos, que cogitemos da grande transição, evitando surpresas desagradáveis.
Nesse aspecto, o primeiro passo, o mais importante, está em definir a finalidade da existência humana.
Diz o ateu: – Estamos aqui por acidente biológico. Não há passado nem futuro. Tudo termina na sepultura.
Diz o evangélico: – Estamos aqui para encontrar Jesus. Não há o passado, apenas o futuro no paraíso, se estivermos com o Senhor.
Diz o espírita: – Estamos aqui para pagar dívidas com o sofrimento. O passado é negro, o futuro será de bênçãos se formos bem comportados.
São ideias equivocadas. A finalidade precípua, fundamental, da jornada terrestre é nossa evolução, com o desenvolvimento de nossas potencialidades criadoras como filhos de Deus.
A evolução ocorre quando nos empenhamos em conquistar valores intelectuais e morais, construindo um patrimônio que nos permita o acesso às moradas dos bem-aventurados.
A propósito, há esclarecedor diálogo de um turista brasileiro com famoso mestre egípcio que visitou na cidade do Cairo. Ficou surpreso ao ver que ele morava num único e singelo cômodo. O mobiliário consistia de rústica mesa e pequena banqueta. A partir dali houve breve e significativo diálogo:
O turista: – Onde estão seus móveis?
O sábio: – Onde estão os seus?
O turista: – Estou de passagem pelo Cairo.
O sábio: – Estou de passagem pela Terra.
Importante preparar não apenas um mobiliário, mas também um lar no Além, a fim de não nos situarmos como um sem-teto, compondo a imensa população de rua em regiões purgatórias.
Memento mori!
Traduzindo: Lembre-se de que você vai morrer!


Cuidado com as preocupações exageradas relativas aos celeiros da Terra. Imperioso cuidar dos investimentos para o Céu, buscando aqueles tesouros que as traças e a ferrugem não corroem nem os ladrões roubam, como ensinava Jesus!




Richard Simonetti, 81, é escritor, espírita, e colaborador deste blog, é um dos maiores divulgadores da Doutrina Espírita segundo a codificação de Allan Kardec a mais de 63 anos.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CONSEQUÊNCIAS IMEDIATAS DO SUICÍDIO - POR RICHARD SIMONETTI







richardsimonetti@uol.com.br



1 – Qual a primeira consequência do suicídio?

A terrível constatação: o suicida não alcançou o seu intento. Não morreu! Não foi deletado da Vida. Continua a existir, sentir e sofrer, em outra dimensão, experimentando tormentos mil vezes acentuados. É uma situação traumática e apavorante, conforme informam suicidas que se manifestam em reuniões mediúnicas. 



2 – Seus sofrimentos são de ordem moral?

Em parte. Há outro aspecto a ser considerado: os estragos no perispírito, o corpo espiritual. O apóstolo Paulo o denominava corpo celeste. Um corpo feito de matéria também, mas em essência, numa outra faixa de vibração, como define Allan Kardec. É o veículo de manifestação do Espírito no plano em que atua, e intermediário entre ele e o corpo físico, na reencarnação.



3 – Quando o médium vidente diz que está vendo determinado Espírito, é pelo corpo espiritual que o identifica?

Exatamente. O Espírito não tem morfologia definida, como acontece com a matéria. É uma luz que irradia. Diríamos, então, que o vidente vê determinado Espírito em seu corpo espiritual, tanto quanto identificamos um ser humano pela forma física. 













4 – O que acontece com o perispírito no suicídio?

Sendo um corpo sutil, que interage com nossos pensamentos e ações, é afetado de forma dramática. Se alguém me der um tiro e eu vier a desencarnar, poderei experimentar algum trauma, mas sem danos perispirituais mais graves. Porém, se eu for o autor do disparo, buscando a morte, o perispírito será afetado e retornarei ao Plano Espiritual com um ferimento compatível com a área atingida no corpo físico. É muito comum o médium vidente observar suicidas com graves lesões no corpo espiritual, produzidas por instrumento cortante, revólver ou outro meio violento por ele usado.



5 – Qualquer tipo de suicídio sempre afetará uma área correspondente no perispírito?

Sim, com tormentos que se estenderão por longo tempo. Dizem os suicidas que se sentem como se aquele momento terrível de auto aniquilamento houvesse sido registrado por uma câmera em sua intimidade, a reproduzir sempre a mesma cena trágica. Imaginemos alguém a esfaquear-se. A diferença é que, enquanto encarnado, essa autoagressão termina com a morte, enquanto que na vida espiritual ela se reproduz, insistentemente, em sua mente, sem que o suicida se aniquile. 



6 – Digamos que a pessoa dê um tiro na cabeça…

Sentirá repercutir, indefinidamente, o som do tiro e o impacto do projétil furando a caixa craniana e dilacerando o cérebro. Um tormento indescritível, segundo o testemunho dos suicidas. Lembra a fantasia teológica das chamas do inferno, que queimam sem consumir.



7 – Falando em chamas, e se a pessoa se matou pelo fogo, desintegrando o corpo?

Vai sentir-se como alguém que sofreu queimaduras generalizadas. Experimentará dores acerbas e insuportável inquietação. É uma situação desesperadora, infinitamente pior do que aquela da qual, impensadamente, pretendeu fugir. 



8 – Podemos situar os desajustes perispirituais como castigos divinos?

Imaginemos um filho que, não obstante advertido pelo pai, não toma os devidos cuidados ao usar uma faca afiada e se fere, seccionando um nervo. As dores e transtornos que vai sentir não serão de iniciativa paterna para castigá-lo. Ele apenas colherá o resultado de sua imprudência. É o que acontece com o suicida. Seus tormentos relacionam-se com os desajustes que provocou em si mesmo. Não constituem castigo celeste, mas mera consequência de desatino terrestre.


Richard Simonetti, 81, é espírita, palestrante, escritor, um dos maiores divulgadores da Doutrina Espírita no Brasil, colabora com este blog semanalmente.



Ri






sexta-feira, 31 de março de 2017

FALTA DE FORMAÇÃO DOUTRINÁRIA - POR J.HERCULANO PIRES





Amigos leitores deste blog, estamos resgatando textos antigos, J.Herculano Pires, foi um dos maiores espíritas, palestrantes e divulgador do espiritismo, recolhemos das páginas da história da doutrina um texto seu da década de 70 muito atual nos dias de hoje e que faz parte de um livro pouco lido e devidamente estudado.

Texto retirado do livro O Mistério do Bem e do Mal, senhoras e senhores, amigos do Espiritismo, Herculano Pires, o metro que melhor mediu Kardec.

...



Sem a formação doutrinária, não teremos um movimento espírita coeso e coerente. E, sem coesão e coerência, não teremos Espiritismo. Essa a razão por que os Espíritos Superiores confiaram às mãos de Kardec o pesado trabalho da Codificação. Kardec teve de arcar, sozinho, com a execução dessa obra gigantesca. Porque só ele estava em condições de realizá-la. Depois de Kardec, o que vimos? Léon Denis foi o único dos seus discípulos que conseguiu manter-se à altura do mestre, contribuindo vigorosamente para a consolidação da Doutrina. Era, aparentemente, o menos indicado. Não tinha a formação cultural de Kardec, residia na província, não convivera com ele, mas soubera compreender a posição metodológica do Espiritismo e não a confundia com os desvarios espiritualistas da época.

Depois de Denis, foi o dilúvio. A Revista Espírita virou um saco de gatos. A sociedade Parisiense naufragou em águas turvas. A Ciência e a Filosofia Espíritas ficaram esquecidas. O aspecto religioso da Doutrina transviou-se na ignorância e no fanatismo. Os sucessores de Kardec fracassaram inteiramente na manutenção da chama espírita, na França. E, quando a Arvore do Evangelho foi transplantada para o Brasil, segundo a expressão de Humberto de Campos, veio carregada de parasitas mortais que, ao invés de extirpar, tratamos de cultivar e aumentar com as pragas da terra.

Tudo isso por quê? Por falta pura e simples de formação doutrinária. A prova está aí, bem visível, no fluidismo e no obscurantismo que dominam o nosso movimento no Brasil e no Mundo. Os poucos estudiosos, que se aprofudaram no estudo de Kardec, vivem como náufragos num mar tempestuoso, lutando, sem cessar, com os mesmos destroços de sempre. Não há estudo sistemático e sério da Doutrina. E o que é mais grave, há evidente sintoma de fascinação das trevas, em vastos setores representativos que, por incrível que pareça, combatem por todos os meios o desenvolvimento da cultura espírita.


Enquanto não compreendermos que Espiritismo é cultura, as tentativas de unificação do nosso movimento não darão resultados reais. Darão aproximações arrepiadas de conflitos, aumento quantitativo de adeptos ineptos, estimulação perigosa de messianismos individuais e de grupos. Flamarion, que nunca entendeu realmente a posição de Kardec, e chegou a dizer que ele fez obra um tanto pessoal, como se vê no seu famoso discurso ao pé do túmulo, teve, entretanto, uma intuição feliz quando o chamou de bom senso encarnado.

Esse bom senso é que nos falta. Parece haver se desencarnado com Kardec, e volatizado com Denis. Hoje, estamos na era do contra-senso. Os mesmos órgãos de divulgação doutrinária que pregam o obscurantismo, exibem pavoneios de erudição personalista, em nome de uma cultura inexistente. Porque cultura não é erudição, livros empilhados nas estantes, fichário em ordem para consultas ocasionais. Cultura è assimilação de conhecimentos e bom senso em ação.

O que fazer diante dessa situação? Cuidar da formação espírita das novas gerações, sem esquecer a alfabetização de adultos. Mobral: esse o recurso. Temos de organizar o Mobral do Espírito. E começar tudo de novo, pelas primeiras letras. Mas, isso em conjunto, agrupando elementos capazes, de mente arejada e coração aberto. Foi por isso que propus a criação das Escolas de Espiritismo, em nível universitário, dotadas de amplos currículos de formação cultural espírita.

Podem dizer que há contradições entre Mobral e nível universitário. Mas, nota-se, que falamos de Mobral do Espírito. A Cultura Espírita é o desenvolvimento da cultura acadêmica, é o seguimento natural da cultura atual, em que se misturam elementos cristãos, pagãos e ateus. Para iniciar-se na cultura espírita, o estudante deve possuir as bases da cultura anterior. "Tudo se encadeia no Universo", como ensina, repetidamente, O Livro dos Espíritos. Quem não compreende esse encadeamento, tem de iniciar pelo Mobral. Não há outra forma de adaptá-lo às novas exigências da nova cultura.
A verdade nua e crua é que ninguém conhece Espiritismo. Ninguém, mesmo, no Brasil e no Mundo. Estamos todos aprendendo, ainda, de maneira canhestra.
E se me permito escrever isto, é porque aprendi, a duras penas, a conhecer a minha própria indigência. No Espiritismo, como já se dava no Cristianismo e na própria filosofia grega, o que vale é o método socrático.
Temos, antes de tudo, de compreender que nada sabemos. Então, estaremos, pelo menos, conscientes de nossa ignorância e capazes de aprender.


Mas, aprender com quem? Sozinhos, como autodidatas, tirando nossas próprias lições dos textos, confiantes nas luzes da nossa ignorância? Recebendo lições de outros que tateiam como nós, mas que estufam o peito de auto-suficiência e pretensão? Claro que não. Ao menos isso devemos saber. Temos de trabalhar em conjunto, reunindo companheiros sensatos, bem intencionados, não fascinados por mistificações grosseiras e evidentes, capazes de humildade real, provada por atos e atitudes. Assim conjugados, poderemos aprender de Kardec, estudando suas obras, mergulhando em seus textos, lembrando-nos de que foi ele e só ele o incumbido de nos transmitir o legado do Espírito da Verdade.

Kardec é a nossa pedra de toque. Não por ser Kardec, mas por ser o intérprete humilde que foi, o homem sincero e puro a serviço dos Espíritos Instrutores.

É o que devemos ter nas Escolas de Espiritismo.
Não Faculdades, nem Academias, mas, simplesmente, Escolas. O sistema universitário implica pesquisas, colaboração entre professores e alunos, trabalho conjugado e sem presunção de superioridade de parte de ninguém. O simpósio e o seminário, o livre-debate, enfim, é que resolvem, e não o magister do passado. O espírito universitário, por isso mesmo, é o que melhor corresponde à escola espírita. Num ambiente assim, os Espíritos Instrutores disporão de meios para auxiliar os estudantes sinceros e despretensiosos.

A formação espírita exige ensino metódico mas, ao mesmo tempo, livre. Foi o que os Espíritos deram a Kardec: um ensino de que ele mesmo participava, interrogando os mestres e discutindo com eles. Por isso, não houve infiltração de mistificadores na obra inteiriça, nesse bloco de lógica e bom senso, que abrange os cinco livros fundamentais de Codificação, os volumes introdutórios e os volumes da Revista Espírita, redigidos por ele durante quase doze anos de trabalho incessante.

Essa obra gigantesca é a plataforma do futuro, o alicerce e o plano de um novo mundo, de uma nova civilização. Seria absurdo pensar que podemos dominar esse vasto acervo de conhecimentos novos, de conceitos revolucionários, através de simples leituras individuais, sem método e sem pesquisa. Nosso papel, no Espiritismo, tem sido o de macacos em loja de louças. E incrível a leviandade com que oradores e articulistas espíritas tratam de certos temas, com uma falsa suficiência de arrepiar, lançando confusões ridículas no meio doutrinário. Temos de compreender que isso não pode continuar. Chega de arengas melífluas nos Centros, de oratória descabelada, de auditórios basbaques, batendo palmas e palavreado pomposo. Nada disso é Espiritismo. Os conferencistas espíritas precisam ensinar Espiritismo - que ninguém conhece - mas para isso precisam, primeiro aprendê-lo.

Precisamos de expositores didáticos, servidos por bom conhecimento doutrinário, arduamente adquirido em estudos e pesquisas. Expor os temas fundamentais da Doutrina, não é falar bonito, com tropos pretensamente literários, que só servem para estufar vaidade, à maneira da oratória bacharelesca do século passado.

Esse palavrório vazio e presunçoso não constrói nada e só serve para ridicularizar o Espiritismo ante a mentalidade positiva e analítica do nosso tempo.

Estamos numa fase avançada da evolução terrena.

Nossa cultura cresceu espantosamente nos últimos anos e já está chegando à confluência dos princípios espíritas em todos os campos. A nossa falta de formação cultural espírita não nos permite enfrentar a barreira dos preconceitos para demonstrar ao mundo que Espiritismo, como escreveu Humberto Mariotti, é uma estrela de amor que espera no horizonte do mundo o avanço das ciências. E curiosa e ridícula a nossa situação.
Temos o futuro nas mãos e ficamos encravados no passado mitológico e nas querelas medievais.
Mas, para superar essa situação, temos de aprender com Kardec. Os que pretendem superar Kardec, não o conhecem. Se o conhecessem, não assumiriam a posição ridícula de críticos e inovadores do que, na verdade, ignoram. Chegamos a uma hora de definições.
Precisamos definir a posição cultural espírita perante a nova cultura dos tempos novos. E só faremos isso através de organismos culturais bem estruturados, funcionais, dotados de recursos escolares capazes de fornecer, aos mais aptos e mais sinceros, a formação cultural de que todos necessitamos, com urgência.




Além dos seus livros, Herculano traduziu e/ou comentou as seguintes obras de Allan Kardec (Editora LAKE):
O livro dos espíritos (tradução e comentários)
Revista Espírita (tradução das poesias na coleção de doze volumes)
O que é o espiritismo (introdução)
O livro dos médiuns (tradução e comentários)
O evangelho segundo o espiritismo (tradução e comentários)
O céu e o inferno (tradução da primeira parte e comentários)
A gênese (apresentação do livro e comentários)
Obras póstumas (introdução e comentários)


terça-feira, 28 de março de 2017

ORÁCULOS - RICHARD SIMONETTI

   

                   
                                            




         A cidade de Delfos, na antiga Grécia, chamada umbigo do mundo, era exuberante centro cultural que atingiu seu apogeu nos séculos VII e VI a.C. Artistas, governantes e militares influentes a visitavam, buscando orientação.
         Imagina o leitor, talvez, que contatavam expoentes nos domínios de suas atividades. Nada disso. Consultavam o Além. É isso mesmo! Multidões procuravam os oráculos, locais onde eram cultuados rituais e cerimônias que favoreciam a manifestação dos defuntos, tomados à conta de divindades.
O termo oráculo define também a resposta obtida nessas consultas. E, ainda, na acepção mais difundida, significa intermediário ou médium que desvenda o futuro.
         O mais famoso estava no templo consagrado ao deus Apolo. Ali atuavam as pitonisas, mulheres que respondiam a perguntas na condição de intermediárias. Hoje diríamos médiuns da divindade grega. Suas afirmações, geralmente na forma de versos de sentido simbólico ou dúbio, eram interpretadas pelos sacerdotes.
Os oráculos espalhavam-se por toda a Grécia, em práticas inusitadas para definir o destino das pessoas. Alguns adivinhavam interpretando a disposição de entranhas de animais sacrificados; outros faziam a incubação: o consulente dormia no templo e recebia as respostas em sonhos. Havia os que usavam uma varinha mágica, os que liam as linhas da mão, os que consultavam os astros
         Nãolimites para a fantasia, quando nos dispomos a entrar em contato com o sobrenatural, sem, sem discernimento, principalmente quando o charlatanismo corre solto. Hoje, como ontem, muita gente quer saber o que lhe reserva o futuro.
         – Santo Antônio atenderá meu pedido de casamento?
         – Ficarei livre do chefe que me atazana?
         – Encontrarei cura para o chulé?
         – Acertarei na loteria?
         Consultam especialistas em leitura das mãos, das cartas, dos búzios, do tarô, da borra de café, do cocô de crianças… E há os médiuns, dotados de sensibilidade para entrar em contato com os mortos. Dispõem-se a desenovelar a vida dos interessados, resolvendo enigmas, apontando caminhos, antecipando o futuro…
         Detalhe não considerado: os Espíritos evoluídos, capazes de desvendar nosso destino, cuidam de assuntos mais importantes.  Não perdem tempo com nossas cogitações de caráter imediatista.
         Por isso, médiuns que se envolvem com essas atividades tornam-se intermediários de guias sem a mínima condição para orientar. Agem como palpiteiros, cegos conduzindo cegos, como diria Jesus. Às vezes acertam, porque falam de generalidades, como o atirador medíocre que atinge um alvo qualquer fazendo dezenas de disparos.
         Os oráculos nem mesmo são médiuns. Dotados de alguma sensibilidade, percebem o que vai no íntimo das pessoas. Por isso, suas informações costumam exprimir o que os consulentes estão pensando ou sentindo, ainda que totalmente equivocados.
         Lembro-me de uma senhora que tinha dúvidas quanto à fidelidade de seu marido, imaginando-o envolvido com insinuante moradora de casa ao lado da sua. Consultou um médium. Este a advertiu, enfático: – Cuidado com a vizinha!
Informação falsa. O marido lhe era fiel. O oráculo apenas captou suas próprias suspeitas e lhes deu o caráter de uma revelação.
                                               ***
         Há razões ponderáveis para cultivarmos o intercâmbio com o Além: atestar a realidade da sobrevivência; exercitar a caridade, amparando entidades sofredoras; receber ajuda espiritual, em relação a problemas físicos e psíquicos
         Imperioso, entretanto, que superemos a tendência de oracularizar a prática mediúnica, pretendendo decifrar os enigmas de nosso destino. Nosso futuro não está escrito num livro. É um livro que estamos escrevendo. Qualquer revelação a respeito será sempre especulativa.
A única certeza que os Espíritos podem nos oferecer não constitui novidade: todos morreremos um dia. Quanto ao mais, até mesmo o que se relaciona com nossa morte, a idade, o dia e as circunstâncias, dependem de um detalhe fundamental:

O que estamos escrevendo no livro de nossa vida.



Richard Simonetti é espírita, escritor, divulgador da doutrina espírita com base na codificação de Allan Kardec, há 62 anos viaja pelo Brasil e pelo Mundo, é colaborador semanal neste blog.

segunda-feira, 13 de março de 2017

OS 'CINCO MINUTOS" - POR RICHARD SIMONETTI






Desde os primeiros contatos com a Doutrina Espírita, Lenita entregou-se ao esforço do Bem. Diligente mãe de família, com cinco filhos que lhe reclamavam atenção, ainda assim, com o apoio do marido, encontrava tempo para labores di­versos, vinculados ao Centro que frequentava: visitava doentes, distribuía mantimentos e roupas, participava de reuniões, exercitava a mediunidade.



Isso tudo apesar de incômodo problema de saúde, uma gastrite crônica que lhe impunha penosos padecimentos. O tratamento médico e os passes magnéticos aliviavam os sintomas, mas o mal era de uma perseverança irritante.
Às vezes, alegando que "nin­guém é de ferro", deitava falação, reclamando dos "guias", que não a amparavam com a eficiência de­sejada.

Certa feita foi mais longe e caiu nos "cinco minutos", expressão popular que define o compor­tamento de pessoas que, perdendo o controle, falam e fazem o que não devem. Regressara ao lar, após visita a enfermos. Dia quente, Sol abrasador de verão. Sedenta, buscou água fresca, sorvendo-a com sofreguidão. No entanto, experimentou a sensação de ingerir ácido puro. Dor lanci­nante invadiu suas entranhas. De­sesperada, clamou:
  Não aguento mais! Se tivesse um copo de veneno tomava agora mesmo para acabar com meu sofrimento!
Arrependeu-se de imediato, ouvindo a servi­çal:
  Pelo amor de Deus, dona Lenita! Não fale assim!... Cuidado com a tentação!...
Ficou arrasada. Como espírita, tinha plena consciência de que nada ocorre por acaso. Havia uma razão para seus males. Não obstante, passou o resto da tarde amuada, com dores no corpo e mágoas na Alma, reclamando socor­ro do Céu.






À noite, na reunião mediúnica, viveu inesquecível experiência. Dava-se à oração quando viu uma mulher que parecia sair de dentro de si mesma, a exibir expressão atormentada. Em lance dramático, a fan­tasmagórica personagem misturou água e soda cáustica num copo. Ato contínuo sorveu o terrível corrosivo.



Como se ela própria o tivesse feito, Lenita sentiu insuportável queimação no trato digestivo, deixando escapar irreprimíveis gemidos que emol­duraram de dor sofrido apelo:
  Meu Deus! Meu Deus! Ajuda-me, Senhor, por misericórdia!...

Percebeu, então, junto de si, um médico de­sencarnado que, após aplicar-lhe medicação fluídi­ca balsamizante, explicou:
  Lenita, mostramos-lhe algo de seu passado, a fim de que impulsos suicidas não mais en­contrem receptividade sua mente. Foi exata­mente assim que você se suicidou na existência passada. Num momento de insensatez, premida por situação difícil, gerou os sofrimentos que a afli­gem. Cuidado! O desespero é péssimo conselheiro. Sugere sempre a fuga, complicando o futuro. Não ponha a perder a preciosa semeadura de bênçãos que vem efetuando. Suas dores estão bem dosadas. A cruz que carrega tem peso certo, compatível com a resistência de seus ombros. Use a almofada da humildade e bem suave lhe parecerá.
Desde então, Lenita não mais permitiu que os "cinco minutos" a desestabilizassem, suportando com resignação as crises gástri­cas. 
E percebia, gratificada, que se tornavam me­nos frequentes e dolorosas à medida que se habituava a usar o anteparo sugerido pelo benfeitor espiritual.





O apóstolo Paulo dizia ter um "es­pinho na carne". Discreto, nunca revelou a natureza de seu problema. Oportuno destacar que se lhe houvesse em­prestado demasiada importância, detendo-se na angústia e na rebeldia, jamais teria conquis­tado a gloriosa condição do grande arauto do Evangelho.
Todos temos o "espinho na carne", conforme as dívidas do passado e necessida­des do presente. Se superestimarmos as limitações e sofrimentos que nos impõe em nosso próprio be­nefício, fatalmente resvalaremos para estados de rebeldia e depressão, favorecendo os perigosos "cinco minutos".

E poderá ocorrer que, tentados a fugir da Vi­da para escapar ao espinho, apenas avançaremos em direção a tormentosos espinheiros.


Richard Simonetti,81, escritor, espírita, há mais de 60 anos divulgando o Espiritismo no Brasil e no Mundo, tem canais em seu nome no You Tube, páginas na WEB, divulgação em Facebook, colabora semanalmente com este blog.